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Por Fabricio Carpinejar
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Confira a coluna completa de Fabricio Carpinejar em Zero Hora.
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Por que os filhos adultos não gostam da visita dos pais? Não tem nada a ver com ingratidão. Ou com falta de saudade. Ou com ausência completa do espírito de acolhimento e hospitalidade. Ou com diferenças de geração. Ou com descomprometimento na família. Ou mesmo com anseio por privacidade.
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É que os pais não conseguem não mexer em tudo. São de uma natureza bisbilhoteira. Nasceram para a blitz, para a intromissão, para o controle. Vivem de um lado para o outro da residência, procurando faxina ou problema. Não sossegam se não realizam a inspeção. Conferem se as cortinas estão puídas, se o sofá se encontra manchado, se avulta algum sinal de cupins nos armários e de traças nas roupas.
Há dentro deles uma voltagem irrefreável por reforma, por revolução, por golpe de Estado. Não compreendem ou reconhecem o seu papel de visita. Colocam o parentesco vitalício na frente de sua condição provisória. Há um desejo paterno e materno de ainda mostrar utilidade, de despertar um sentimento antigo de dependência, e não se cansam de tirar os objetos de lugar sob o pretexto de que estão arrumando e ajudando.
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Poeta, cronista e jornalista
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Eu, por exemplo, apareci no apartamento do meu filho. Passei uns dias lá. Vi uma caixa na área de serviço, pensei com os meus botões que era lixo e que Vicente estava com preguiça de levar para o subsolo do prédio. Quis fazer a cortesia de despachar.
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Estranhei que tinha um baú de acrílico dentro. — Ué, será que ele não viu que iria jogar fora uma caixa tão boa? Mas concluí que deveria apresentar algum defeito, e que ele deveria estar ciente disso. Respeitei o caráter descartável do amontoado de papelão, e botei o conjunto inteiro na lixeira. Arejei o ambiente daquela tralha.
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Quando ele voltou da universidade, questionou: — Você viu a embalagem que deixei na área? Eu sorri, satisfeito com os meus préstimos. — Levei para baixo. Ele não pareceu nem um pouco animado com a minha gentileza. — Era um produto que veio errado, e separei para a troca.
Em nenhum momento, cheguei perto dessa hipótese. Jamais cogitei que se tratava de uma devolução. Sempre partimos do óbvio e cometemos as nossas maiores mancadas. Gerei um prejuízo gratuito. Ele não tem mais o que trocar. Antes de agir, antes de promover um favor para os filhos, respire pausadamente, contenha o ímpeto, espere o retorno deles e execute um tira-teima. Pergunte o que significa cada objeto. Ou simplesmente aprenda a existir sem interferir em nada.
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